Avaliação da Aceitabilidade de
Leite de Cabra por Crianças em Itapetininga/SP
Evaluation
of the Acceptability of Goat Milk by Children in Itapetininga/SP
Alcina
Maria Liserre1, Aline de Oliveira Garcia2, Katumi
Yotsuyanagi2, Carlos Frederico de Carvalho Rodrigues1,
João Elzeário Castelo Branco Iapichini1, Ariene Gimenes Fernandes
Van Dender3
1.
Pesquisador científico. Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento de Itapetininga,
APTA REGIONAL, APTA. 2. Pesquisador científico. Unidade
Laboratorial de Referência de Análises Físicas, Sensoriais e Estatística/ LAFISE,
ITAL, APTA. 3. Pesquisador científico. Centro de Pesquisa e
Desenvolvimento de Laticínios/ TECNOLAT, ITAL, APTA
1.
Resumo
A importância do leite de cabra na alimentação
infantil não reside apenas no valor biológico de seus nutrientes, mas também em
suas características de hipoalergenicidade. Por isso o seu consumo assume
importância nos processos alérgicos de origem alimentar, particularmente
aqueles relacionados às proteínas do leite de vaca. Devido aos benefícios
nutricionais provenientes do leite de cabra e aos inúmeros criadores de
caprinos existentes na região de Itapetininga, torna-se interessante incentivar
o consumo do leite desta espécie pela população. O objetivo deste trabalho foi
avaliar a aceitabilidade do leite de cabra e de vaca por crianças no município
de Itapetininga, visando verificar se existe ou não diferença entre os dois
tipos de leite. O leite foi pasteurizado e preparado com achocolatado. As
amostras preparadas com achocolatado foram submetidas à avaliação sensorial por
um grupo de 50 crianças de
Palavras chave: leite
de cabra, aceitabilidade, sensorial, criança, nutrição
2.
Introdução
A importância do
leite na alimentação infantil é uma questão indiscutível. Esse alimento,
indispensável no primeiro ano de vida, na maioria das famílias, continua a ser
oferecido às crianças durante toda a fase de crescimento. A cabra acompanha o
homem desde as mais remotas referências históricas, sendo muitas vezes citada
como o segundo animal a ser domesticado há 10 mil anos. Atualmente os caprinos
estão difundidos nas mais diversas regiões do globo adaptando-se aos mais
variados tipos de clima, topografia, fertilidade do solo e alimentos (Lemos
Neto e Almeida, 1993). O leite de cabra é uma excelente opção para substituição
do leite de vaca, após o primeiro ano de vida, permitindo crescimento e
desenvolvimento adequados, e sua importância não reside apenas no valor
biológico de seus nutrientes, mas também em suas características de
hipoalergenicidade (Fisberg et al., 1999). O teor reduzido de a-s1-caseína
do leite de cabra favorece a formação de coágulos finos e suaves, facilitando a
absorção, tolerância e o processo digestivo deste produto, e por isso o seu
consumo também assume importância nos processos alérgicos de origem alimentar (Luiz
et al., 1999; Mesquita et al., 2004). Além disso, o leite de cabra contém
percentual mais elevado de ácidos graxos de cadeia curta e média e glóbulos de
gordura menores, facilitando a digestibilidade e favorecendo o esvaziamento
gástrico e, em conseqüência, reduzindo a incidência de refluxo gastroesofágico
(Bonassi et al., 1998, Fisberg et al. 1999). O leite de cabra, comparado ao
leite de vaca, possui características de alta digestibilidade, alcalinidade
distinta e maior capacidade tamponante (Park, 1991, Luiz et al., 1999). Fisberg
et al. (1999) realizaram um estudo com o objetivo de avaliar o consumo de leite
de cabras por crianças freqüentadoras de creches municipais da cidade de São
Paulo, visando a análise da tolerância, aceitação e avaliação do crescimento
pondero-estatural e da hemoglobina, comparando-o ao do leite de vaca,
tradicionalmente utilizado nessas instituições. Esses pesquisadores observaram
que ao longo do estudo houve diferenças significativas entre a ingestão láctea,
sendo que os volumes médios de aceitação do leite de cabra, em pó e UHT, foram
duas vezes superiores ao do leite de vaca. O grupo que recebeu leite de vaca
apresentou menor ingestão de leite durante todo o estudo, ao redor de 50% do
que ingeriram os grupos com leite de cabra. Ainda, segundo esses pesquisadores,
uma das possibilidades que explicam a baixa ingestão de leite de vaca é a
intolerância subclínica à proteína do leite, que faz com que um número elevado
de crianças reduza o consumo de leite. Devido aos benefícios nutricionais
provenientes do leite de cabra e aos inúmeros criadores de caprinos existentes
na região de Itapetininga, torna-se interessante incentivar o consumo do leite
desta espécie pela população. O objetivo deste trabalho foi avaliar a
aceitabilidade do leite de cabra e de vaca por crianças de
3.
Material e Métodos
3.1. Material
O leite de cabra utilizado
foi obtido de cabras da raça Saanen na região de Itapetininga, criadas em
sistema semi-intensivo. Quanto à alimentação, utilizou-se suplementação
concentrada com ração (farelo de soja, milho desintegrado, palha e sabugo –
MDPS, quirera de milho e complexo mineral) oferecida duas vezes por dia. O sal
mineral, a água e volumoso verde com Rami eram fornecidos à vontade. Além
disso, durante o dia, após a ordenha, era permitido acesso à pastagem
constituída com os capins tanzânia e guaçú. Para a retirada do leite,
realizou-se linha de ordenha profilática e higiênica no período da manhã antes
que as cabras recebessem qualquer tipo de alimentação e os bodes foram mantidos
a uma distância mínima de
3.2 Metodologia
No laticínio da COPPRIR, leite
de cabra e leite de vaca destinados à análise sensorial foram pasteurizados por
aquecimento em banho-maria a
4. Resultados e Discussão
4.1. Caracterização
do grupo de consumidores recrutado
Um grupo de 50 consumidores
de leite, 46% meninos e 54% meninas, com idade entre 8 e 11 anos, e pertencendo
à classes sociais de acordo com a distribuição apresentada na Figura 1, foi recrutado
para o teste.
|
|
Figura 1. Classe social do grupo de consumidores recrutado para
avaliação das amostras.
4.2 Teste de
aceitabilidade
Os resultados obtidos nos testes de escala hedônica
quanto à aceitabilidade global e em particular ao aroma e ao sabor são
apresentados no Quadro 1. Verifica-se que as amostras de leite de vaca e leite
de cabra não diferiram entre si ao nível de erro de 5% para todos os aspectos
avaliados, e observa-se que as médias das duas amostras correspondem às opções
“gostei” e “gostei muito” quanto ao sabor e à aceitabilidade global (Figuras 2
e 4) e “gostei” quanto ao aroma (Figura 3).
Quadro 1. Resultados obtidos nos
testes de escala hedônica quanto à aceitabilidade global e em particular ao
aroma e ao sabor das amostras avaliadas. Em cada linha, valores seguidos de
letras diferentes diferem estatisticamente entre si ao nível de erro de 5% *.
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|
Amostras |
|
|||
|
|
Leite de vaca |
Leite de cabra |
D.M.S. |
||
|
Aceitabilidade |
|
|
|
||
|
Global |
4,4 ± |
4,5 ± |
0,31 |
||
|
Aroma |
4,1 ± |
4,2 ± |
0,30 |
||
|
Sabor |
4,4 ± |
4,6 ± |
0,28 |
||
* Valores expressos como Média ± Desvio-padrão.
D.M.S.: Diferença mínima significativa ao nível de
erro de 5% pelo Teste de Tukey.
As porcentagens de
aceitação, indiferença e rejeição associadas às amostras por meio das escalas
hedônicas utilizadas, correspondentes às porcentagens de valores da escala de
Quadro 2. Porcentagens de aceitação,
indiferença e rejeição das amostras avaliadas quanto à aceitabilidade global,
ao aroma e ao sabor.
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|
Amostras |
|
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|
Escala |
|
|
Leite de vaca |
Leite de cabra |
|
||||
|
Aceitabilidade |
|
Aceitação (%) |
86,0% |
90,0% |
|
||||
|
Global |
Indiferença (%) |
10,0% |
10,0% |
|
|||||
|
|
Rejeição (%) |
4,0% |
0,0% |
|
|||||
|
|
Aceitação (%) |
76,0% |
86,0% |
||||||
|
Odor |
Indiferença (%) |
20,0% |
8,0% |
||||||
|
|
Rejeição (%) |
4,0% |
6,0% |
||||||
|
|
Aceitação (%) |
84,0% |
94,0% |
||||||
|
Sabor |
Indiferença (%) |
14,0% |
6,0% |
||||||
|
|
Rejeição (%) |
2,0% |
0,0% |
||||||
No Quadro 3 são apresentados os gostos e desgostos
descritos pelos consumidores. Verifica-se que o principal ponto forte das
amostras de leite de cabra e leite de vaca, traduzido pela maior freqüência de
citações positivas, é o sabor. Quanto aos pontos fracos, as amostras obtiveram
maior número de citações negativas em relação ao aroma. Com esses resultados
nota-se que o leite de vaca pode ser substituído pelo leite de cabra na
alimentação de crianças com mais de um ano, com a vantagem de causar menos
reações alérgicas que o leite de vaca.
Quadro 3. “Gostos e Desgostos” descritos pelos consumidores em relação
às amostras (os números indicam a freqüência com que foram citados).
|
Amostras
Gostos
|
Leite de vaca |
Leite de cabra |
|||
|
Cor |
11 |
7 |
|||
|
Aroma (em geral) |
15 |
13 |
|||
|
Sabor (em geral) |
29 |
29 |
|||
|
Tudo |
9 |
12 |
|||
|
Desgostos |
|
|
|
|||
|
Cor |
0 |
3 |
|
|||
|
Aroma (em geral) |
11 |
9 |
|
|||
|
Sabor (em geral) |
4 |
2 |
|
|||
|
Doçura (muito
doce) |
2 |
0 |
|
|||
5. Conclusão
Pelos resultados obtidos, para o preparo de bebidas
achocolatadas, o leite de vaca pode ser substituído pelo leite de cabra, pois
não houve diferenças significativas quanto à percepção sensorial, e os índices
de rejeição quanto aos atributos aceitabilidade global e sabor foram nulos.
Portanto, programas públicos voltados para a saúde infantil podem contar com
essa opção de alimento no cardápio da merenda escolar, considerando as suas
características de hipoalergenicidade e alta digestibilidade.
6. Abstract
The
importance of goat milk in infant feeding does not reside only in the
biological value of its nutrients, but also in its hypo-allergenic
characteristics. Due to this, its use assumes importance in the allergic
processes of food, particularly those related to the cow milk proteins. Due to
the nutritional benefits originated in goat milk and the numerous producers in
the region of Itapetininga, it is interesting to incentivize its use by the
population. The objective of this work was to evaluate the acceptability of
goat and cow milk by children in the
Key words: goat milk, acceptability, sensorial, child, nutrition.
7. Referências
Bibliográficas
Bonassi, I.A.,
Kroll, L.B., Vieites, R. Contribuição ao estudo de ácidos graxos livres em
leite de cabra. Anais do XIV Congresso
Nacional de Laticínios, p.77-82, 1998.
Fisberg, M.,
Nogueira, M., Ferreira, A.M.A., Fisberg, R.M. Aceitação e tolerância de leite
de cabra em pré-escolares. Pediatria Moderna, vol. XXXV, n.7, julho, 1999.
Lemos Neto, M.J.; Almeida,
J.E. de. Levantamento da situação da caprinocultura no Estado de São Paulo. Zootecnia, v.31, n.1, jan/mar, p.29-46, 1993.
Luiz, M.T.B., Drunkler, D.A., Henn, R., FETT, R. Leite de carbra:
hipoalergenicidade, composição química e aspectos nutricionais. Rev. Inst. Latic. Cândido Tostes, Jan./Fev., no 306, v. 54, p.23-31,
1999.
Meilgaard, M., Civille, G. V., Carr, B. T. Sensory Evaluation Techniques, 3rd
edition, CRC Press, Inc.:
Mesquita,I.V.,U.,
Costa,R.G., Queiroga,R.C.R.E., Medeiros,A.N. Efeito da dieta na composição
química e características sensoriais do leite de cabras. Rev. Inst. Latic. Cândido Tostes, Set./Dez., no 340-341,
v. 59, p.73-80, 2004.
Moskowitz, H.R. Product testing and sensory
evaluation of foods – Marketing and R&D approach. Food & Nutrition
Press Inc.:
Park, Y. Relative buffering capacity of goat milk, cow
milk, soy-based infant formulas, and commercial nonprescription antacid drugs. Journal of Dairy Science, v.74, n.10,
p. 3326-3333, 1991.
8. Agradecimentos
À Secretaria de Educação do
Município de Itapetininga, funcionários, professores e alunos que colaboraram
com a realização desse estudo.
À equipe da Cooperativa de
Pequenos Produtores Rurais de Itapetininga e Região (COPPRIR), pela
matéria-prima e colaboração com o processamento do leite.
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